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Cancelamento

Uma coisa é criticar o trabalho ou o comportamento de alguém, outra coisa é criticar a pessoa em si, e outra coisa é a violência de um cancelamento.

 

As pessoas são mais do que aquele recorte a que nós temos acesso numa rede social,  por exemplo, ou naquela esfera da vida em que convivemos com elas. Fala-se muito em lugar de fala e pouco em lugar de escuta, e o cancelamento é um retrato disso. É preciso abrir uma brecha para escutar mesmo aquilo que é desagradável – estar na posição de analista é ouvir o que vier, o analista não escolhe o que o analisando vai dizer e também não aponta o dedo pra ele. Não se trata de tomar partido de quem nos propomos a escutar, não nos cabe “cancelar” ou absolver ninguém, apenas compreender. É disso que fala a neutralidade/abstinência do analista, cujo lugar é o da escuta, aquela escuta psicanalítica em que não se ouve o que se gostaria de ouvir, mas o que o analisando precisa falar, aquela escuta que demanda trabalho e que se deve ouvir para além das palavras. Uma escuta que renuncia a opinião pessoal em favor do acolhimento e do entendimento. A opinião pessoal fica guardada na esfera privada.

 

Evidentemente que uma situação em que uma celebridade comete um grande erro pode despertar o que alguns chamam de “gatilho”, assim como somos impactados por inúmeras coisas, inclusive coisas que para alguns são muito banais – o inconsciente é assim mesmo, dificílimo de prever. Isso não necessariamente é ruim porque é uma oportunidade de trabalhar com o paciente coisas que não viriam à tona se não fosse aquele determinado acontecimento ou o “gatilho” que a pessoa sentiu em qualquer outra situação.

 

Somos mais complexos do que bom/mau, essa é um ótica binária que não representa o universo que habita cada um. A psicanálise nos ensina que esses dois extremos caricatos apontam para o próprio sujeito. A reação desproporcional que é o cancelamento comparado ao erro cometido já nos dá uma pista disso e nos fala da noção de imaginário de Lacan (psicanalista francês), aquela relação especular.

 

Winnicott (psicanalista inglês) em “Privação e delinquência” nos diz que tratar alguém que erra com violência só piora as coisas. A psicanálise jamais aponta para a violência (física ou psíquica) ou para a perseguição como solução para qualquer tipo de comportamento. E ninguém vai pra análise culpar o outro (pelo menos não é isso que vai conseguir numa análise bem conduzida), a análise consiste justamente em responsabilizar o sujeito porque, mesmo que o outro tenha sua parcela de culpa, nossa opinião sobre ele é sempre carregada de aspectos pessoais.

 

O cancelamento também nos diz de um gozo sádico de ver a queda de um ídolo que se mostra tão humano quanto nós e que pode errar tanto ou mais que a gente. Também representa uma oportunidade de simplesmente descarregar nossa agressividade sobre essa pessoa; agressividade essa que tem origem em outra pessoa significativa de sua vida, mas que é direcionada ao bode expiatório porque a pessoa original também é amada e a agressividade dirigida a ela geraria imensa culpa.

O bode expiatório normalmente é uma pessoa distante o suficiente para manter a segurança do ego e para que possamos liberar toda nossa agressividade sem perigo de retaliação. Isso também vale para qualquer tipo de preconceito e chamamos de “posição esquizoparanoide”, como ensina Melanie Klein (psicanalista inglesa da primeira geração).

 

Seguimos acusando o outro de fazer exatamente aquilo que fazemos com ele agora.

Escrito por:
Fernanda Soibleman Kilinski

CRP: 07-19871 - Porto Alegre - RS

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